bandeirantes #1, 2019
miniatura de monumento em homenagem aos bandeirantes fundida em latão e cartuchos de munições utilizadas pela Polícia Militar e Forças Armadas brasileira sobre base construída de taipa de pilão
70 x 20 x 20 cm
foto Filipe Berndt

Denominadas de “bandeiras”, e organizadas por indivíduos conhecidos como Bandeirantes, diversas expedições partiam sobretudo do atual estado de São Paulo (inicialmente a capitania de São Vicente) em direção ao interior do Brasil em busca de ouro, e para capturar escravos fugidos e indígenas para uso como mão de obra escrava. Por serem um movimento exploratório, os bandeirantes ultrapassaram os limites do Tratado de Tordesilhas (1494) e ampliaram os domínios portugueses na América. Por conta de seus propósitos, muitas bandeiras se constituíram como verdadeiras expedições de apresamento e destruição de comunidades autônomas e de resistência a escravidão.

Devido as manipulações, inerentes aos processos de construção histórica, os bandeirantes se tornaram figuras polêmicas e contraditórias. Isso ocorre, pois existem inúmeras divergências entre as ações empreendidas pelos bandeirantes e a memória construída em torno destes personagens da História do Brasil. Em sua grande maioria as representações que mais conhecemos, e que povoam o imaginário popular, em especial os habitantes do estado de São Paulo, elevam os bandeirantes ao status de heróis nacionais, sempre caracterizando- os como homens fortes, bravos e destemidos que lutaram contra uma série de intempéries: ferozes índios, verdadeiras fortalezas de escravos fugidos, entre outras ficções criadas para adjetivarem, ainda mais, as suas “conquistas”. Nesse processo, alguns fatos são descartados, como, por exemplo, a nacionalidade dos bandeirantes, uma vez que muitos nem sequer eram portugueses de fato, bem como a realidade social dos mesmos, desconsiderando que muitos eram tidos por persona non grata em Portugal, e também o fato de muitas expedições bandeirantes serem contratadas para exterminar toda e qualquer possibilidade de luta abolicionista encampada por escravos que fugiam dos engenhos e fazendas.

Em suas expedições, os bandeirantes construíam casas que serviam de abrigo para as suas tropas. Construídas com a técnica de taipa de pilão,

possuíam uma planta tipicamente simples. Uma porta central, com alpendre, ladeada por dois cômodos frontais — o quarto de hóspedes e a capela — abre-se para um salão principal, pelo qual tem-se acesso a outros cômodos, ou alcovas

Os mais conhecidos bandeirantes eram, em sua grande maioria, do que compreendemos hoje como o estado de São Paulo. Dentre eles se destacaram: Antônio Raposo Tavares, Bartolomeu Bueno da Silva, Domingos Calheiros, Domingos Jorge Velho, Estevão Parente, Fernão Dias Paes, Manuel Borba Gato, Morais Navarro e Pascoal Moreira Cabral.

Na série de trabalhos Bandeirantes, miniaturas que homenageiam os bandeirantes compradas em mercados de pulga, feiras de antiguidade e casa de leilões são refeitas a partir da fundição de latão e cartuchos de munições utilizadas pela Polícia Militar e Forças Armadas Brasileiras. Como base para escultura foi construído um cubo sólido através da aplicação da técnica de taipa de pilão.

A escolha por utilizar os cartuchos de cartuchos de munições utilizadas pela Polícia Militar e Forças Armadas Brasileiras, deu-se para evidenciar a centralidade da figura de verdadeiros genocidas, como os bandeirantes, na construção da identidade nacional e da noção de segurança e soberania nacional. Este fato fica claro, nos diversos monumentos, praças e rodovias em homenagem aos bandeirantes. Porém, a faceta mais perversa dessas homenagens encontra-se nas homenagens prestadas pelo braço armado do estado, como por exemplo: a OBAN (Operação Bandeirante), centro de informações, investigação e repressão da ditadura militar, que teve em Carlos Alberto Brilhante Ustra o seu nome mais conhecido; ou o Batalhão Bandeirante (binfa-14), grupamento de operações especiais da Força Aérea Brasileira (FAB); dentre outros.




bandeirantes #2, 2019
miniatura de monumento em homenagem aos bandeirantes fundida em latão e cartuchos de munições utilizadas pela Polícia Militar e Forças Armadas brasileira sobre base construída de taipa de pilão
85,5 x 20 x 20 cm
foto Filipe Berndt




monumento às bandeiras, 2016
base de tijolo vermelho e réplica do Monumento às bandeiras fundida em latão e cartuchos de munições utilizadas pela Polícia Militar e Forças Armadas Brasileiras
20 x 9 x 7 cm
foto Filipe Berndt