Nessa terra, em se platando, tudo dá
por Germano Dushá

Datada de 1500, a carta do escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral, Pero Vaz de Caminha, endereçada ao rei de Portugal, Dom Manuel, dava conta de uma terra em que não se viu ouro, nem prata, ou qualquer coisa de metal ou ferro. Dizia em seguida, porém, que que- rendo aproveitá-la, daria de tudo. E ainda: que o melhor fruto que nela se poderia fazer era salvar a gente que estava aqui.

Se antes preferiam recolher riquezas em imediato, pare- ce que logo encontraram um chamado divino – e sempre mercantilista – que conduziu esforços intensos de explo- ração, plantação e catequização. Armados e com a ban- deira alta, saíram em terra, assassinaram, escravizaram e declararam posse. Abriu-se caminho para o tanto que viria de fora: dos muitos produtos agrícolas aos sistemas de controle da corte portuguesa e os ritos do catolicismo. Do que já estava aqui, usufruiu-se à exaustão.

A frase que dá título a esta exposição de Jaime Lauriano, apesar de atribuída ao relato de Caminha, não consta em suas linhas. Trata-se, portanto, de um erro de citação fru- to da interpretação disseminada pela tradição popular. Talvez seja exatamente em função dessa natureza que tenha se fixado como ícone do mito fundador do Brasil.

Por meio de operações que se inclinam sobre as possí- veis relações entre o período colonial e as gravidades sociais que acometem os dias de hoje, o artista lida com lesões abertas que marcam impetuosamente o cotidiano de um país que se mantém sobre atrozes desigualdades. Podemos então, com sorte, pensar criticamente a res- peito do que se fez nesta terra e, sobretudo, como se tem contado suas histórias. O que foi que se plantou, e o que foi que deu.