Marcas
por Moacir dos Anjos

O Brasil é um país fundado na violência. É um país que traz, desde sua origem, a marca da violência extrema contra os povos nativos das terras que os colonizadores europeus tomaram como fossem suas. É um país que traz, desde quase tanto tempo, a marca da violência extrema de uma minoria branca contra os milhões de africanos sequestrados de seus países e trazidos para serem escravizados no “mundo novo” que se formava ali. Violências que, ao longo de vários séculos, se reproduzem, se transmutam e se naturalizam, alcançando, como se fosse destino, mesmo os descendentes distantes daqueles que primeiro sofreram as dores da invenção do Brasil. É país que se institui ancorado no racismo, único modo de justificar a destituição de humanidade dos mortos ou subjugados no processo de construí-lo.

A despeito das narrativas (sociológicas, historiográficas, ficcionais) que buscam relativizar ou mesmo apagar a persistência desse racismo fundante (“democracia racial” sendo a mais popular delas), o Brasil contemporâneo dá mostras cotidianas do quão distante está de se desprender dos laços que o atam ao seu passado. São patentes e continuadas as investidas contra os direitos de os povos indígenas não somente pertencerem às terras de seus ancestrais como delas fazerem o uso que melhor lhes aprouver. Povos que são, no limite, fisicamente eliminados por aqueles que não reconhecem, neles, a condição de igual. Assim como são evidentes, ainda no Brasil de agora, as discriminações sofridas pela população afrodescendente que o habita, mesmo se numericamente majoritária em seu território. Discriminações pela cor escura da pele que atravessam o Estado e instituições privadas, com repercussões evidentes na dificuldade de acessar direitos que para outros são facilitados no país.

É nesse contexto que o artista Jaime Lauriano instaura e inscreve uma obra que, embora ainda em construção, está já claramente posta como ruído intenso no campo da arte no Brasil, espaço historicamente avesso a contaminações com o que há de mais duro e espesso na vida ordinária. É da sua condição de homem negro que articula, fazendo uso de diversos procedimentos criativos, questões de antes e de agora que fazem, do Brasil, um dos países mais racistas do mundo atual. Detém-se, em particular, na observação de violências históricas contra mulheres e homens negros e nas suas persistentes aparições nos tempos que correm, criando formas de representar o Brasil que querem disputar a hegemonia, em circuitos simbólicos, com narrativas mais apaziguadas do país, nas quais as dores e as perdas impostas a essas populações são minimizadas ou mesmo ocultas.

Entre as várias operações a que se dedica está a de refazer, sobre tecido ou diretamente sobre paredes, como é caso na presente exposição, mapas e cartas náuticas que remontam à época da colonização do Brasil, período em que foram estabelecidas as principais bases de sociabilidade do país. Usando pemba branca (giz utilizado em rituais de Umbanda) sobre fundo preto, o artista rebaixa o cromatismo original dessa cartografia colonial e insere, nela, menções ao etnocídio perpetrado  contra povos originais e africanos escravizados nessas regiões, além de sugerir, em linha do tempo que inclui nos desenhos, que essa dinâmica necropolítica ainda vigora, mesmo se transformada em outros aparatos de controle e extermínio. 

Tem-se também constituído como prática frequente no trabalho de Jaime Lauriano a revisita a objetos produzidos no passado – seja de cunho artístico ou de uso banal – e sua mistura a outros produzidos nos tempos que correm – sejam trabalhos de arte que ele mesmo faz ou imagens e produtos encontrados ao acaso. Articula tempos distintos para exibir os modos como a violência própria de outros momentos históricos se apresenta, nem sempre tão alterada, ainda agora. Para a exposição Marcas, Jaime Lauriano selecionou, do acervo da Fundação Joaquim Nabuco, objetos de castigo e tortura utilizados, até o final do século 19, contra negras e negros escravizados em Pernambuco, bem como imagens diversas de passado mais ou menos remoto (de gravuras e desenhos a cartões postais e rótulos de sabonete e cachaça) que mostram o lugar que corpos pretos ocupavam no imaginário de quem detinha o poder e os recursos para criar tais representações. A eles adiciona trabalhos seus que dão ênfase, no atrito com as peças e imagens de outras épocas, a uma das formas mais corriqueiras de atualização, no presente, das violências racistas do passado escravocrata do país: o linchamento.

Entre tais trabalhos, está um que faz parte de série chamada Suplício, na qual o artistaajunta, em vitrines museológicas, objetos que foram e são usados para linchamentos no Brasil contemporâneo, sejam os cometidos pela multidão anônima, sejam os perpetrados por policiais em ações em que ignoram as mais básicas normas legais vigentes. Objetos ordinários – pedra, fita, corda, tubo de lâmpada, barra de ferro, trava para bicicleta, corrente, entre outros mais – utilizados para prender e golpear aqueles que são mais vulneráveis a acusações que lhes sejam feitas, sem que haja qualquer possibilidade de defesa ou respeito à presunção de sua inocência. Para prender e golpear aqueles que, historicamente no país, são majoritariamente pobres, jovens e negros. Em outro, chamado Calimba, Jaime Lauriano imprime a laser e fogo, sobre placas de madeira, manchetes de jornais que reportam casos de linchamento em várias partes do Brasil. São ocorrências que não somente atualizam punições introduzidas no período de colonização do país, mas que as tornam visíveis em lugares os mais distintos e distantes. E se há algo que unifique a maior parte delas, para além de se caracterizarem como atos de desumanização, é o fato de terem, como alvo destacado, segmentos específicos da população do país. Em obra ainda em construção, o artista indica como as marcas do passado racista do Brasil se intrometem na história que se desenrola agora no país.