Reflexividade a toda prova
por Paulo Miyada e Priscyla Gomes

É difícil prever o futuro da Vila Anglo Brasileira. O bairro ocupa um contexto geográfico tão extremo que parece virtualmente invisível mesmo para alguns moradores dos bairros adjacentes. O declive acentuado transforma um lugar de vista privilegiada em um bolsão que provavelmente seria ocupado apenas por vegetação em cidades de tradição urbanística mais rigorosa. A idade e o uso misto de suas construções, que variam de casas germinadas até oficinas, sugerem possíveis processos de especulação imobiliária em um futuro próximo, mas pode ser também que o bairro continue dono de seu próprio ritmo, independentemente do que se passa nos vizinhos Vila Romana e Pompeia.

Essa relativa dissonância entres as dinâmicas urbanas da Vila Anglo e seu entorno pode tanto ser lida como efeito colateral da ocupação ambiciosa de uma área que deveria ter permanecido desocupada quanto como uma dádiva diante da voracidade dos processos de verticalização e padronização da paisagem paulistana. Neste caso, o isolamento em relação ao fluxo urbano – usualmente interpretado como mazela das cidades contemporâneas – funciona como garantia de autonomia de uma dada cidade.

Os lugares que, por metonímia, dramatizam esse isolamento são os acessos ao bairro, especialmente a vertiginosa e longa escadaria da rua Bica de Pedra, que a liga com a rua Pedro Soares de Almeida, na Pompeia. Seus quase duzentos degraus dão corpo a uma referência urbana cheia de histórias, afetos e desencontros. Foi justamente ali, no topo da escadaria, que Jaime Lauriano resolveu instalar sua peça: uma placa de bronze feita á maneira das identificações de monumentos cívicos. Ao invés de nomes de figuras politicas, entretanto, ela afirma: A HISTÓRIA SE ENCERRA EM MIM.

Que história se encerra em quem? A história do bairro coincide com sua geografia peculiar? A história dos moradores restringe-se aos contornos do bairro? A história do artista à materialidade da placa? A história do passante ao instante em que ele lê essa inscrição?

Todas essas possibilidades de leitura convivem na mesma frase. Mesmo contraditórias, elas não se eliminam mutualmente devido à extrema reflexividade da sentença original. Espécie de tautologia afetiva, o encerramento da história em si mesmo pode ser visto como traço de autonomia por autodeterminação ou como marca e isolamento.

A história, na verdade, não pode se autodeterminar, pois é de sua natureza resultar de dinâmicas que acontecem justamente “entre” agentes, sujeitos e objetos diversos. A história, assim como a linguagem, não pertence a ninguém especificamente e não pode ser encerrada em um único lugar. Não obstante, é também natural que haja aqueles com vontade e poder para controlar os marcos históricos, fazendo uso privado da memória coletiva, o que leva à criação dos monumentos.

É sintomático, portanto, que Jaime Lauriano tenha escolhido uma frase que parece oferecer uma noção privada da história para criar o seu próprio marco urbano. Sua placa funciona como um monumento às avessas, defendendo a disjunção da esfera pública ao invés de sua simples continuidade universalizante. Seria de se imaginar que um artista preocupado em criticar as dinâmicas exploratórias do capital defendesse o espaço público a todo custo – mas isso seria uma ingenuidade. Hoje, são justamente os mecanismos de especulaçãoo imobiliária os mais interessados na homogeneização das regras e valores de toda a cidade, para que suas iniciativas de propaganda e valorização especulativa possam circular sem atrito. A ideia de que a história precise ser compartimentas, então, torna-se surpreendentemente crítica.