Brinquedo de furar moletom
por Raphael Fonseca


As histórias do colonialismo na América Latina e seus reflexos traumáticos na contemporaneidade são um dos núcleos de interesse de Jaime Lauriano. Nascido e baseado na cidade de São Paulo, o artista tem desenvolvido diferentes trabalhos em que seu olhar crítico se volta para as narrativas da violência no Brasil, em especial no que diz respeito à população negra em um arco temporal que vai do tráfico negreiro à resistência atual das comunidades quilombolas.

Sua proposta de ocupação da varanda do MAC Niterói dá prosseguimento ao histórico recente de projetos curatoriais que pensam a especificidade de um museu que apresenta uma vista panorâmica para a Baía de Guanabara. Partindo de sua posição, o artista reflete sobre o lugar ocupado historicamente no imaginário cartográfico dessa localização: área portuária que foi território de invasões, batalhas e fortalezas que tentaram assegurar a integridade do Brasil colonial. Esses episódios históricos foram sobrepostos a outros em que o conflito foi – e ainda é – palavra de ordem no estado do Rio de Janeiro: a ditadura militar e a violência policial dos últimos anos.

O artista propõe uma pequena barricada como ocupação da varanda. Esse muro é feito com tijolos popularmente chamados de “tijolos coloniais”, adquiridos em olarias e resultado de um processo de feitura que remete à história da construção civil no Brasil. Acima desse longo muro que ocupa três galerias do espaço, miniaturas de transportes relacionados ao militarismo, à defesa e à violência.

Três caravelas, um tanque, um avião de guerra e vinte e sete miniaturas de carros da polícia militar pousam sobre os tijolos como se defendessem o espaço interno do museu. Essa ronda diminuta representa as vinte e sete capitais do Brasil e teve seus modelos extraídos de automóveis comumente utilizados pela polícia militar: o caveirão (Rio de Janeiro), a base móvel da Polícia Militar de São Paulo e quatro modelos populares (Palio, Gol, Fiat Uno e pick-up). Balas de armas utilizadas por policiais foram coletadas em diferentes cidades do Brasil e constituem a matéria que compõe essas réplicas.

O título da exposição foi extraído da música “Vida loka parte 1”, do célebre grupo paulistano de rap Racionais MCs. Do álbum “Nada como um dia após o outro dia”, de 2002, se trata de um verso que joga justamente com um dos elementos essenciais da proposta de Lauriano: os limites entre violência e infância, entre miniaturas de brinquedos e munição militar. Onde começa um e termina o outro? Até quando brincar de “polícia e ladrão” será visto apenas como mais uma brincadeira infantil?